Uma entrevista com super-pateta, primeiro-ministro de Portugal

Estive de férias. Não escrevi, não li, não pensei, não me preocupei, porque a minha cabeça merecia alguns dias de sol. Não me refiro ao sol da praia – de que também desfrutei – a embater no exterior da cabeça, mas sim ao sol que dentro dela torna os pensamentos menos cinzentos e ordena às nuvens mais negras que migrem para sítios mais frios. Deixei-me envolver por aquela sensação agradável que apenas se alcança por via da pacatez da inexistência e da ignorância da alucinação, quando nos libertarmos da eminência da desgraça, permanente e ininterrupta. Por vezes sabe bem ignorar a face feia da natureza humana, deixar que se torne invisível por entre os raios de luz, esquecer que os homens moldam o mundo e não sabem o que fazem. Contudo todas as férias terminam, e os homens que moldam o mundo, que somos todos, retornam à sua existência.

Hoje um desses homens entrou por minha casa adentro, avisando-me que não sabe o que faz. Não porque eu não o soubesse, apenas pela cortesia de me relembrar que o mundo não está feito para ter sol. O nome desse homem é Pedro Passos Coelho.

O primeiro-ministro de Portugal tomou mais um conjunto de decisões que irá moldar o mundo dos portugueses, e uma vez mais tornou-o mais sinuoso, mais cinzento e mais insuportável. Muita tinta correu já sobre o assunto, muita gente se revoltou, muita gente explicou já porque está errado. Porém, deixando as considerações políticas e económicas de parte, acho que falta entender o essencial, porque é necessário compreender a pessoa para entender o governante. Passos não age por malícia ou requinte sádico como muita gente parece entender. Não acredito que possua qualquer plano diabólico para dominar o mundo, porque não é um vilão e muito menos um demónio. Passos é apenas um homem fraco numa posição de poder, uma combinação invariavelmente desastrosa. Provavelmente, por ter chegado onde chegou, o Primeiro-ministro alimentou nele próprio a ilusão de que seria algo para além da mediocridade evidente que o constitui. Agora é forçado a lidar com o desespero que qualquer homem sente quando percebe que perdeu aquilo que nunca teve.

É uma tarefa hercúlea, a de compreender o que é mais desastroso no meio de toda esta embrulhada em que o super-pateta (cognome que tomo a liberdade de atribuir ao PM) se deixou envolver. Os danos dramáticos que estas medidas irão trazer ao país são consensuais para toda a gente menos para os seus executantes; as consequências tanto para a imagem do governo como para a sua estabilidade política e social são catastróficas; e para ajudar ao completo “non-sense”, o conceito que o governo tem de “damage control” parece passar por engolir um camião dinamite. Porém, nada disto deve causar demasiado espanto, uma vez que este governo já demonstrou ser especialista na arte de agarrar numa situação desastrosa e torná-la na pior possível. Se for essa a missão de Passos, então acredito piamente que durma tranquilo à noite por estar a fazer “o melhor possível”, como afirmou com pura esquizofrenia ou insultuoso descaramento.

No entanto, prefiro não centrar o ataque em Passos Coelho porque, ao contrário do governo que é suposto chefiar, não gosto de bater em mortos. Se há coisa que me parece ter ficado clara nesta entrevista, talvez a única, é que Passos é apenas o bode expiatório, a face mais visível de um plano que não ajudou sequer a esboçar. E como costuma acontecer nestas aventuras arriscadas de grupo, é o pateta que acaba atirado aos leões para salvar os que se aproveitaram dele. Passos apresentou-se totalmente vulnerável, sem instrumentos para se defender, e caso tivesse sido abordado por entrevistadores mais agressivos teria abandonado o ecrã da televisão com lesões irreparáveis.

Mas mesmo que sobreviva, o super-pateta não irá ficar bem tratado. É das poucas figuras da história da política portuguesa a conseguir revoltar ao mesmo tempo, jornalistas e economistas, povo e grandes patrões (incompreensível do ponto de vista político o ataque gratuito a Belmiro), e acrescentar a proeza de encostar uma arma à cabeça do seu maior aliado (a antecipação a Paulo Portas). Entretanto, na sombra, o país continua refém de pulhas como António Borges ou das patologias psiquiátricas de Vítor Gaspar.

O sol foi embora, os homens regressam, e não sabem o que fazem. Este ano o Inverno chegou mais cedo a Portugal.

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A iminência da morte no interior de um autocarro

Sempre que entro num autocarro apercebo-me de que os meus companheiros de viagem representam para mim pouco mais do que isso. Não são para mim o senhor José, o António, a Maria ou a dona Erminda, mas apenas passageiros sem nome do mesmo autocarro em que me encontro. A minha existência representa igualmente pouco para eles, para além do jovem anónimo que viaja no autocarro 33.

Sempre me fez confusão esta frieza de saber tão pouco sobre a dona Erminda ou sobre o senhor José. Gostava de os poder admirar pela coragem honrada com que enfrentam a dureza vida. Ocasionalmente um lamento ou um motivo de orgulho torna-se mais audível, sopra ao meu ouvido, e eu sorrio. Por vezes fico a conhecer o nome da neta e o amor incondicional da sua avó. Vislumbres de um mundo com gente dentro que são capazes de transformar uma viagem de autocarro num despertar para a realidade.

Dentro de um autocarro, um senhor de avançada idade conversava com um companheiro de viagem que já conhecia. Sei que é falta de educação ouvir as conversas dos outros, mas estava sentado demasiado próximo dos dois senhores para conseguir não escutar. Ainda para mais, o modo desalentado com que o senhor de quem não sei o nome se apoiava na bengala já havia captado a minha atenção. O seu semblante estava marcado com notas tristes e carregadas, fazendo-me contar mentalmente clichés de solidão. Sem que eu conseguisse evitar, os meus ouvidos tornaram-se mais atentos, como se tivessem vida própria e quisessem descobrir os motivos que desenhavam desânimo naquele rosto.

Ouvi os habituais “cá se vai andando” e algumas informações sobre o destino da viagem. Não demorou muito para que o senhor sentisse necessidade de contar ao seu conhecido companheiro de viagem a inquietação que o consumia. Era apenas uma. Uma com o peso do mundo.

“Tenho 50 e poucos contos de pensão…pouco mais dá do que para comer. Se não é o meu filho a cuidar de mim, nem dinheiro tinha para a medicação. Já não ando neste mundo a fazer nada”. Pouco há de mais pesado do que a consciência de viver de forma pouco digna, ou pior, de julgar que a própria existência não possui qualquer valor. O outro logo tratou de o chamar à razão, “oh amigo deixe-se lá dessas coisas”. Mas o amigo não se deixou, “a sorte é que já não ando por aqui muito mais tempo…”. Restou apenas silêncio entre os dois.

Saí daquele autocarro com um soco no estômago e um aperto no peito. É difícil para o ser humano lidar com a falta de valor da vida, porque o ser humano aprendeu que a vida é o valor acima de todos os outros. Excepto para aquele senhor, que se sentia somente um passageiro sem relevância, à espera da sua última paragem. Da última fora do autocarro.

É este o lado dos números que as notícias não mostram. O lado que está para além das contracções da economia de 0,1% ou dos cortes de 30% na despesa do Estado, o lado que está para lá do rigor orçamental e das metas da troika. Para quem governa, este senhor anónimo no autocarro, não existe…

Porque não se pode traduzir em números a vontade de morrer.

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Pode vir o caneco, foram-se as checas…

Depois da vitória de Portugal contra a República Checa podemos tirar duas conclusões sobre este Euro. A primeira é que esta competição está a mostrar a força dos chamados PIGS, os parentes pobres da Europa. A segunda é que não é o ano do futebol bonito, pelo menos do jogado fora de campo, nas bancadas.

Depois da passagem de Portugal às meias finais, ficam a faltar as relativamente prováveis passagens da Espanha  e da Itália (um semi-PIG), e a surpresa da Grécia contra a poderosa (dentro e fora de campo) Alemanha, e fica garantido que a vitória no derradeiro jogo do Europeu irá encher de felicidade algum povo com poucas razões para sorrir.

Por outro lado tem sido um europeu desastroso para os genes esteticamente abençoados. Depois da Rússia, da Suécia, da Polónia, da Ucrânia, da Dinamarca e da Croácia, terem ficado pela fase de grupos, retirando um sem número de beldades dos quartos de final, a vitória de Portugal privou os olhos mais gulosos de algumas guloseimas como estas:

Infelizmente, nesta eliminatória a beleza estava condenada a sair derrotada. Afinal de contas acabaram por seguir para as meias finais as mais bonitas adeptas do europeu.
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Realidade curta e grossa

Hosni Mubarak encontra-se afinal em coma e não clinicamente morto. Parece que as notícias da sua morte foram manisfestamente exageradas.

Quem pode ter a morte à porta no Euro é a selecção grega, que disputa sexta-feira os quartos-de-final com a Alemanha. Se o resultado do jogo seguir a mesma lógica das eleições de há dois dias atrás, a equipa de Fernando Santos vai para casa goleada.

E quando se fala na Grécia é impossível não falar de austeridade. Nos últimos dias muita gente tem falado sobre ela, e não pelos melhores motivos. Nowotny, membro do BCE, lembrou que a austeridade permitiu ao nazismo chegar ao poder e um grupo de estudo do FMI avisou que sem medidas de crescimento a economia europeia estará condenada à estagnação; vozes que se juntam às já habituais declarações anti-austeridade de Paul Krugman. Claro que grande parte da opinião pública já tinha descoberto esta pólvora há muito tempo atrás, mas nessa altura não acreditar na austeridade ainda era sinal de ignorância…

Foi precisamente a ignorância, ou falta de provas, que levou a ERC a ilibar Miguel Relvas das acusações de pressão ilícita sobre a jornalista Maria José Oliveira. Tal como previ há quase um mês atrás, o ministro(até me custa dizer) sai deste caso impávido, sereno e impune. Não sei se me preocupa mais o desfecho em si ou a previsibilidade do mesmo.

Felizmente nem tudo são notícias tristes. A portuguesa Joana Vasconcellos tornou-se na primeira mulher e mais jovem artista a expor no palácio de Versalhes. E por cá ainda há quem não compreenda qual o sentido de apostar na cultura…

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As lições de democracia do professor Barroso

O sentido democrático dos líderes Europeus assemelha-se bastante ao conhecimento matemático da maioria dos alunos portugueses. Ou seja, parece estar a necessitar urgentemente de explicações.

Bem sei que não é a primeira vez que me debruço sobre os tiques autoritários e pouco democráticos dos decisores políticos da nossa Europa, assim como sei que ninguém gosta de ouvir a mesma lenga-lenga vezes sem conta. Mas terão de se queixar a Durão Barroso (Zé Manel para os amigos) pela minha redundância. É ele que não me deixa outra alternativa.

O presidente da comissão europeia, conseguiu o incrível feito de revelar um paupérrimo espírito democrático enquanto defendia, imagine-se, a importância da democracia! Concordarão que se trata de uma proeza de um grau de dificuldade particularmente elevado, porém, ao alcance deste nosso compatriota.

Durão Barroso decidiu deixar um aviso claro aos participantes do G20 mesmo antes do início da cimeira.  Barroso afirma peremptoriamente que “a europa não está no G20 para receber lições de democracia ou de como gerir a sua economia”. Por outras palavras, o nosso ex primeiro-ministro, transmitiu muito claramente a mensagem de que não está aberto ao diálogo democrático e que irá ignorar qualquer contributo que não passe pela solução divina que entende, na sua autoridade, ser a única. Uma posição que se confunde com o “Orgulhosamente sós”, característico de outro nosso ex-governante que também não aceitava lições de democracia.

Mais admirável, é que o professor Barroso conseguiu transmitir esta mensagem enquanto se congratulava pelo espírito democrático Europeu, utilizando-o, aliás, como justificação para as dificuldades que a União tem sentido na resolução da sua crise económica. Talvez seja eu que esteja a precisar de lições de democracia, uma vez que tenho uma séria dificuldade em perceber estes entendimentos do presidente da Comissão Europeia.

Diz Durão que na Europa os problemas levam mais tempo a ser resolvidos, “porque somos uma União de 27 democracias que têm de encontrar o consenso necessário”. Acho curioso, porque o que tenho visto nos últimos tempos é uma democracia europeia que se resume à imposição de convicções de um reduzido número de personalidades. Que é como quem diz, às vontades da senhora Merkel.

Parece-me evidente que as posições da Imperatriz da Europa se têm revelado inquestionáveis, ao mesmo tempo que se vão levantando cada vez mais vozes a questioná-las. Vozes que não a dela, e consequentemente vozes que não interessam.

É natural que neste contexto absolutamente aberrante e quase paradoxal, em que existe apenas um caminho e uma lei, e em que a abertura para dialogar e reflectir é nula (como demonstram as declarações de Barroso), se verifiquem imensas dificuldades para perceber ao certo o que é democracia. Eu pelo menos começo a desconfiar seriamente que já não sei bem o que é.

Contudo o presidente da comissão europeia pode ficar descansado. Apesar de eu não ter compreendido a sua autoridade democrática, tenho a certeza que existe quem o tenha entendido na perfeição. E até aplaudido. Afinal, a China e a Arábia Saudita têm assento no G20.

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Syriza: O início do fim. As sementes de um sonho.

O frenesim europeu à volta das eleições gregas confunde-se com a agitação em volta do partido que todos classificam como de “esquerda radical”. O Syriza colocou a europa em alvoroço porque, para o bem ou para o mal, constitui uma novidade revolucionária na monotonia política europeia.

O partido liderado pelo jovem Alexis Tsipras era até há bem pouco tempo um daqueles partidos de ideologia demasiado vincada, que fazem parte da paisagem política mas que dificilmente contribuem para a moldar. O cenário político europeu habituou-se a ser constituído maioritariamente pelo chamado “centro” que, não obstante algumas nuances de direita ou de esquerda, acaba por permitir com facilidade a convergência e concordância necessárias para implementação de uma visão política homogénea. O Syriza, para o bem ou para o mal, acaba por se revelar a primeira ameaça séria a essa tranquilidade política da Europa.

Naturalmente, um partido radical que ganhou protagonismo numa situação dramática dificilmente poderia despertar análises moderadas. As perspectivas relativas aos Syriza têm-se dividido entre uma visão messiânica que encara a vitória do partido como o início da solução de todos os problemas do mundo e a visão oposta de que uma vitória do Syriza seria o início do Apocalipse. Pessoalmente tenho dificuldade em perceber se Tsipras é um demagogo que puxou do populismo para chegar ao poder ou se de facto é apenas um cavaleiro heroico que pretende unicamente defender a justiça, independentemente das consequências.

Tenho somente certeza de duas coisas. A primeira é que o Syriza demonstrou possuir algo que tem faltado à liderança de todos os parentes pobres da Europa: o Syriza tem tomates! A segunda certeza é que essa demonstração pode ter tanto de fantástico como de terrível.

Já era tempo de alguém dizer muito claramente aos decisores políticos europeus, com a senhora Merkel à cabeça, que somos mais do que meros vassalos. O Syriza fê-lo de forma inequívoca. Ousou apresentar-se a eleições enfrentando o feudalismo olhos nos olhos, gritando com rebeldia: “eu faço o que quero, não o que me mandam!”. Acontece que como qualquer rebelde, o Syriza terá, em caso de vitória, de lidar com a retaliação por parte de quem desrespeitou.

Os donos da autoridade europeia têm procurado a todo o custo evitar o triunfo da rebeldia. Sucedem-se os alertas, os avisos, as ameaças, demonstrações de indesmentível pânico. Contudo, seria ingénuo pensar que um partido radical de um país devastado e profundamente enfraquecido como a Grécia constitui um adversário capaz de ombrear, por exemplo, com a poderosa Alemanha. Pelo contrário, uma vitória do Syriza irá colocá-lo na boca do lobo, irá deixá-lo na posição de uma presa fácil para a autoridade esmagar. A Alemanha, o FMI, a comissão europeia, e todos os outros bastiões do poder político europeu, irão castigar sem piedade o Syriza caso este não ceda às suas pretensões. Porque é necessário fazer destes gregos, como de qualquer rebelde, um exemplo. Porque a grande ameaça que o Syriza constitui, reside na possibilidade de contágio.

As autoridades europeias vão assassinar, definitivamente, a Grécia, em seguida empalhar a sua cabeça, e por fim exibi-la aos restantes vassalos exclamando: “isto é o que acontece quando não seguem o nosso caminho!”. Os gregos irão sofrer, muito. Assim como o resto da Europa. Por muito que o Syriza tenha vendido a ilusão de que todos os problemas se vão dissipar e que a coragem sairá triunfante, o único resultado possível da sua vitória será a condenação de todos os europeus.

No entanto se atentarmos nos caminhos que conduziram a todas as emancipações ao longo da história, apercebemo-nos que este cenário é tremendamente semelhante.

Como Martin Luther King eu tenho um sonho. Que um dia os países sejam julgados pelo carácter dos seus cidadãos e não pelo poder dos seus políticos.

Grécia, Portugal, Alemanha, Espanha, França… caminhando lado a lado, enquanto iguais.

E toda a igualdade começou com o primeiro rebelde…

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O admirável mundo novo

Hoje deixo-vos com um texto que escrevi há uns tempos atrás e que andava perdido na desorganização virtual do meu ambiente de trabalho. Embora os números não sejam recentes, a mensagem permanece actual. Aqui fica:

 “O mundo transfigura-se a um ritmo vertiginoso. Um facto que não constitui qualquer novidade. No entanto, sempre que constato as mudanças alucinantes na morfologia mundial, a todos os níveis, não deixo de sentir um certo nó na garganta, neste caso provocado por um estudo elaborado pela consultora Mckinsey. Os dados fornecidos são os seguintes: no ano de 2020, em França, poderão existir 2,3 milhões de desempregados, enquanto 2,2 empregos tecnológicos poderão não encontrar franceses para os preencher. A novidade estará somente na particularidade dos números e do local, porque a realidade retratada é já bastante familiar. Afinal temos sido inundados, todos os meses, com estudos, reportagens, ou simples recomendações pessoais, que nos indicam que as oportunidades – quiçá as únicas – se encontram no universo das tecnologias. O que me dá que pensar…

O progresso tecnológico foi sempre encarado, até aos dias de hoje, como uma espécie de panaceia, algo exclusivamente bom. E, confesso, é complicado encará-lo de outro ângulo. Afinal, progredir é chegar mais além, é atingir o que antes não se encontrava ao alcance, é o processo através do qual se obtém mais e melhor.

Naturalmente, tornámo-nos obcecados por esse processo, por sermos mais do que aquilo que fomos no passado e somos no presente. O que temos e o que somos é sempre insuficiente, e quanto mais insatisfeitos formos, mais capazes seremos de oferecer mais. A satisfação conduz ao conformismo, e o conformismo impede o progresso.

Assim sendo, a felicidade torna-se irrelevante. O máximo que conseguimos – e devemos – desfrutar é uma momentânea sensação de saciedade, um deslumbre temporário no momento em que observamos o último fruto colhido da árvore do progresso. Findo esse deleite fugaz, voltamo-nos, de imediato, para o horizonte, apontamos a mira para a maravilha que poderá surgir a seguir, pelo que nunca nos conseguimos sentir realmente gratos pelas coisas maravilhosas que atingimos. Há sempre margem para melhorar…

Tornámo-nos uma espécie de escravos do amanhã e colocámo-nos reféns da tecnologia. Não conseguimos viver sem ela, e futuramente conseguiremos menos ainda.

Não obstante todo este meu dramatismo, se entenderam que considero o progresso tecnológico como algo maligno, foram por mim induzidos em erro e apresento-vos as minhas sinceras desculpas. Muito pelo contrário! Encaro o progresso como algo fantástico – às vezes quase mágico – e todos os dias me surpreendo com as coisas espantosas que a tecnologia nos permite fazer.

Não, não tenho medo algum do progresso. Tenho, isso sim, muito medo das obsessões. A obsessão é castradora, não permite espaço para nada que não seja seu objecto. E temo que seja precisamente desse mal que padece a nossa relação com a tecnologia.

Caminhamos para um mundo em que o valor do Homem será, única e imperativamente, ligado à máquina. Existiremos exclusivamente para criar tecnologia e para a operar, o que significa que, caso não o consigamos fazer, não representaremos qualquer utilidade para a nossa sociedade.

Esta é uma mentalidade cada vez mais visível no presente, na forma como se organiza o mercado de trabalho, tanto a nível de emprego como de retribuição, o que tem, inevitavelmente, consequências naquilo que a sociedade tem e terá para oferecer. Caso a tendência se mantenha com o mesmo ritmo, não iremos proporcionar nada para além do virtual e do computorizado.

Confesso que a possibilidade de um futuro nestes moldes me causa arrepios. E, por esse motivo, evito, normalmente, imaginar a minha vida daqui a 20 anos. No entanto, e apesar de, feliz ou infelizmente, a tecnologia não nos ter presenteado – ainda – com qualquer bola de cristal, possuímos indicadores cada vez mais claros de como será a paisagem do nosso futuro. Sou forçado a vislumbrá-la. E confrontado com essa paisagem, sinto a necessidade de me questionar: Será a tecnologia tudo de que necessitamos? Será que quando finalmente se aniquilar tudo o que não lhe esteja ligado, seremos uma sociedade melhor? Virtualizar e computorizar o mundo é, de facto, oferecer mais?

É fundamental que se comece a pensar sobre os passos que se dá, em vez de os dar simplesmente, de forma automática e vertiginosa. Caso contrário temo que a modernidade venha a revelar-se o derradeiro carrasco de qualquer futura humanidade…
Ou talvez seja exagero. Talvez seja apenas de mim, que sou, por natureza, preocupado.”

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Durante este Euro, façam o favor de ser felizes!

Quem tem lido jornais nas últimas semanas deparou-se por certo com os Euros na maioria das capas. Com o do futebol e com o monetário que está ameaçado pela Grécia. Na primeira jornada do primeiro, os dois euros inspiravam os mesmos sentimentos em grande parte dos portugueses: ameaçavam trazer-nos infelicidade e a culpa era dos alemães. No entanto, ontem tudo mudou e ouviram-se buzinas na rua. Mas já lá vamos.

Primeiro é preciso fazer uma pausa para falar de outro tipo de sentimentos que o Euro futebolístico inspira em alguns portugueses. Em todos os momentos em que o futebol origina euforia, a ideia do “ópio do povo” surge na cabeça de muita gente. Porque a malta esquece-se dos problemas e torna-se inconsciente, dando a ideia de que o futebol é a coisa mais importante do mundo. Há quem se revolte com a situação. Naturalmente há quem sinta raiva do futebol e da irracionalidade com que contamina as mentes.

Há quem leve o patriotismo a sério, e não goste que as bandeiras, figurativamente falando, só saiam à rua quando joga a selecção. E eu estou ao lado dessas pessoas que consideram que ser Português não é ir buzinar com o cachecol ao pescoço e defender o Ronaldo por muito pouco que jogue. Não é, pelo menos não é só. Mas também não concordo que quem passa estas semanas com a cabeça na selecção se preocupa menos com o país do que quem não liga nada à bola.

Ser preocupado dá muito trabalho. Estar sempre preocupado é insuportável. É como uma dor permanente e aguda que nos leva a suspirar por analgésicos. E para o bem e para o mal, estes momentos futebolísticos ajudam a aliviar essa dor. São o alívio das preocupações constantes de todos os portugueses.

O que nos traz de novo às buzinas. À manifestação incontrolável e generalizada de alegria. Não existiu nos últimos tempos nenhum outro motivo que oferecesse aos portugueses um pretexto para festejar. E embora seja uma realidade triste, seria bem mais triste caso não existisse pretexto algum.

O futebol conseguiu ontem algo único e que todos desejaríamos que pudesse acontecer todos os dias: os portugueses esqueceram que eram pobres e os dinamarqueses esqueceram que eram ricos. Este Euro, e apenas este, conseguiu que a riqueza de um país não fosse o valor mais importante, que a felicidade ou a infelicidade de um povo não rodasse exclusivamente em redor do dinheiro. Não é esse o mundo melhor que todos imaginamos?

Eu compreendo o que leva os mais sérios a revoltar-se com o futebol. Contudo peço-vos que desfrutem das poucas alegrias de que têm oportunidade de desfrutar. Mesmo que passem apenas por uma bola numa baliza.

Como disse um dia Raúl Solnado, durante este Euro “façam o favor de ser felizes!”

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O último resistente Europeu

A muito pouco solidária Europa continua a observar em silêncio a conquista do “espaço vital” da Imperatriz Angela Merkel.  A todos os países que cruzam os braços por vergonha dos seus semelhantes, eu dedico esta minha adaptação do famoso poema de Martin Niemoller, que curiosamente se tornou, nos últimos tempos, tremendamente actual:

Primeiro resgataram a Grécia,
e eu cruzei os braços, porque não era grego.
Depois resgataram a Irlanda,
e eu cruzei os braços, porque não era irlandês.
A seguir resgataram Portugal,
e eu cruzei os braços, porque não era português.
De seguida resgataram a Espanha,
e eu cruzei os braços, porque não era espanhol.

Por fim resgataram-me a mim,
E já não existia ninguém para me defender…

Merkel vai anexando país atrás de país, com mais eficiência e rapidez, do que Hitler alguma vez conseguiu.

Quando a Europa acordar, arrisca-se a encontrar a fria bandeira alemã como único lençol…

Quando a Europa acordar, o seu nome será Reich…

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Os privilegiados e os outros – Parte 3

Se Passos Coelho está convencido de que somos como os gregos, eu vou procurar convencê-lo do contrário. Com três motivos bastante simples. Nós pagámos impostos, não fomos irresponsáveis e não falseámos as nossas contas públicas. Somos, aliás, muito menos próximos dos gregos do que do seu oposto.

Com um fácil exercício de memória, apercebemo-nos de que os portugueses, nos últimos 10 anos, não fizeram outra coisa se não preocupar-se em consolidar as contas públicas. Desde 2002 que só conhecem o apertar de cinto, exceptuando um ou outro delírio megalómano de Sócrates.

Portugal tem tido sempre o cinto apertado porque surge invariavelmente um motivo de força maior, um imperativo de urgência, que faz soar o alarme, que motiva a necessidade extrema de aplicação de austeridade. O que na prática se traduz não em aplicação, mas em mero agravamento.

O argumento utilizado para justificar estas medidas, quase sempre comunicadas como excepcionais, é inevitavelmente o mesmo: como gastámos mais do que aquilo que produzimos, somos obrigados a pagar o excesso.

Ora talvez não fosse mal pensado dar uma volta ao argumento: se gastamos toda a nossa energia e todos os nossos recursos a trabalhar para pagar o excesso, como vamos produzir mais do que aquilo que gastamos?

A resposta é simples, não vamos. Na verdade Portugal está a reunir todas as condições para permanecer interminavelmente escravo do endividamento. Para compreendermos o porquê vamos por momentos imaginar que Portugal é uma família.

Se uma família tem 500 euros em contas para pagar, e os seus rendimentos são de 500 euros, o orçamento disponível para outro tipo de gastos será nulo. Essa família, vamos chamar-lhe Coelho, viverá apenas para pagar as suas contas fixas.

Acontece que irão inevitavelmente surgir gastos extraordinários, as contas da água e da luz podem subir, e os impostos podem aumentar. As despesas dessa família vão portanto tornar-se superiores à riqueza que produz.

A partir desse momento a família Coelho tem duas hipóteses, ou procura aumentar as suas fontes de rendimento, por forma a conseguir fazer face às suas obrigações, ou se endivida para pagar as suas despesas.

O mais exequível, porque maior rendimento não surge por magia, seria endividar-se como veículo para conseguir investir e tentar aumentar a sua receita. Dessa forma, o aumento de riqueza da família daí decorrente, poderia conseguir responder ao aumento das despesas e cobrir o empréstimo contraído. Não é algo fácil, e é bastante falível, mas qual a alternativa?

A alternativa é a Família Coelho render-se ao endividamento para pagar o aumento da despesa. Financia os seus custos só que a despesa não desaparece, apenas muda de destinatário, e é agravada com juros. Pelo que a família Coelho apenas consegue ir fazendo face, temporariamente, por via de novos empréstimos, a uma dívida que vai sempre possuir e com contínuo agravamento.

Chegará uma altura em que a Família Coelho terá de abdicar de quase todas as suas despesas. Vai passar fome, vai viver sem água, vai pôr em causa a sua saúde para fazer face à dívida. Arrisca-se a que o Pai Coelho deixe de ter condições para trabalhar e perca definitivamente a capacidade para gerar dinheiro para a sua família. A família Coelho ficará arruinada e passará a depender de eventual caridade para sobreviver. O banco provavelmente não conseguirá recuperar todo dinheiro que emprestou, porque a família deixou de ter condições para lhe pagar.

O nosso país é a família Coelho. E caso não consiga criar condições para gerar riqueza suficiente para fazer face às suas obrigações, continuará escravo da dívida até que fatalmente encontre o seu triste fim.

Este status-quo, estes interesses dominantes, tornaram-nos escravos da dívida. Os grandes jogadores aliciaram-nos a ir jogar com eles, com promessas de obtermos mais do que aquilo que podemos ter. Observámos o exemplo dos Estados Unidos, potência económica com dívida gigantesca, e deixámo-nos seduzir pela possibilidade de um mundo em que viveríamos com mais do que conseguimos sem qualquer consequência.

O que ignorámos foi que em qualquer jogo alguém tem de ganhar e alguém tem de perder. Como em qualquer jogo, ganham os grandes jogadores. Portugal carece, e irá carecer sempre, de poder político que lhe permita jogar um jogo tão perigoso sem ser apertado. Quando se é peixe miúdo o fio é mais fácil de puxar. E o anzol está na boca desde início.

Daí a minha estupefacção por encontrar, no nosso país, tantos defensores de um sistema que nos coloca em tão desvantajosa situação.

Quando até Camilo Lourenço, alguém que tenho como pessoa ponderada, classifica uma entidade como a Moodys de “insuspeita” e afirma não perceber qual a razão para tanto negativismo dos portugueses, eu não encontro alternativa se não ficar atónito.

Sou forçado a fazer uma pausa para reflectir e identificar as causas para este fenómeno. E apercebo-me de que a explicação é bastante óbvia. A realidade a que eu tenho acesso e a realidade a que os aficcionados do sistema têm acesso são drasticamente diferentes.

(continua…)

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