Reflexão: O Big Brother de Zuckerberg

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A minha mente preocupada acordou particularmente arrojada. Por isso vou aventurar-me por terrenos pantanosos e mergulhar nas águas turvas de um tema muito sensível. Peço-vos que não fiquem assustados, escandalizados, ou até mesmo insultados, porque o exercício que irei praticar de seguida é meramente teórico, é simplesmente uma reflexão. Uma reflexão acerca da privacidade.

Tenho a perfeita noção do quão arriscada é a temática. Regra geral, todas as considerações que não passem pela defesa absoluta e inequívoca da privacidade originam celeuma. Contudo não entrei neste pedaço virtual do mundo para agradar a todos, mas sim para oferecer perspectivas diferentes com que possam olhar o mundo.

Reparei que embora continuemos a olhar para a privacidade como algo sagrado, a nossa conduta em relação a ela mudou radicalmente. Na verdade, na prática, não atribuímos à privacidade o valor que, na nossa cabeça, lhe entendemos dar.

Obviamente esta afirmação está profundamente relacionada com a era das redes sociais. Quer queiramos quer não, a nossa esfera privada é hoje muito mais reduzida do que estávamos habituados há uns anos atrás. O facebook, o twitter, a blogoesfera , e por aí fora, criaram um estranho espaço híbrido entre aquilo que é privado e aquilo que é público. Hoje somos todos uma espécie de figuras públicas, e o facebook está para nós como os tabloides e as revistas cor-de-rosa estão para as celebridades. Sem nos apercebemos atraímos à nossa volta um sem número de voyeurs, escondidos entre as centenas ou milhares de “amigos” que acolhemos na nossa vida virtual.

Penso na quantidade absurda de informação que tenho sobre pessoas com as quais nunca falei na vida. Vem-me à cabeça George Orwell, 1984, o “Grande Irmão”…Orwell, ainda nos anos 40, antecipou um mundo em que viveríamos sem privacidade, mas nunca terá imaginado que seríamos nós a abdicar voluntariamente dela.

E chegamos ao ponto em que irei começar a ser realmente polémico: Será que a privacidade é, de facto, assim tão fundamental? Ou esticando ainda mais a corda: Será que não é prejudicial à sociedade?

Se pensarmos bem, a privacidade é um quase sinónimo de secretismo. A nossa privacidade é, resumidamente, aquilo que não queremos que os outros saibam ou vejam de nós. São os nossos segredos, é aquilo que queremos esconder. Quanto mais privacidade tivermos mais tentador se torna, consciente ou inconscientemente, fazer algo que é considerado errado. A privacidade torna-nos desleixados , não nos preocupamos tanto se soubermos que ninguém vai saber.

Ainda para mais, o ser-humano tem extrema dificuldade em olhar para os seus próprios defeitos, a tendência é quase sempre para os ignorar, como se fossem invisíveis aos nossos olhos. Se os escondermos no biombo da privacidade, dificilmente os conseguiremos corrigir. Eu já tive a minha privacidade violada, e sinto-me grato por ter acontecido. Consegui ver aquilo que os outros olhos viram, acordei para a realidade. E não gostei do que vi. Mas tê-lo visto irá certamente fazer de mim uma pessoa melhor.

Tenho para mim que as pessoas que mais valorizam a privacidade são aquelas que mais têm a esconder. Basta pensarem no número de criminosos que gozam da total liberdade em nome da privacidade. Dá que pensar no preço a pagar por termos onde nos esconder.

Contudo, continuo sem acreditar que um mundo sem privacidade seja um mundo melhor. Sei que o ser-humano necessita e tem direito a preservar a sua intimidade. Mas tendo em conta tudo o que disse em cima, tenho uma enorme dificuldade em perceber onde deve ser colocada a fronteira.

Talvez me possam ajudar, talvez me ajudem a perceber onde estão os limites intransponíveis e a sua importância. Afinal este espaço, que escrevo para vocês, é também vosso.

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Uma resposta a Reflexão: O Big Brother de Zuckerberg

  1. KikeElCritico diz:

    Já gostei mais desta. Mas:
    “Tenho para mim que as pessoas que mais valorizam a privacidade são aquelas que mais têm a esconder. Basta pensarem no número de criminosos que gozam da total liberdade em nome da privacidade” discordo completamente. Há pessoas mais reservadas que outras sem necessariamente terem algo a esconder.

    “Contudo, continuo sem acreditar que um mundo sem privacidade seja um mundo melhor. Sei que o ser-humano necessita e tem direito a preservar a sua intimidade. Mas tendo em conta tudo o que disse em cima, tenho uma enorme dificuldade em perceber onde deve ser colocada a fronteira.” no âmbito das redes sociais e afins continuas a ter o controle que quiseres ter sobre a tua privacidade. Era engraçado era reflectires no que pode levar as pessoas a abdicar de parte da sua privacidade em massa e ao ritmo a que estão a fazer isso. Noutro tópico completamente diferente, seria engraçado pensares em como o facebook e outros tantos podem ou não estar a violar a tua privacidade(ser um bocado mais especifico no que eles fazem. Era giro por exemplo veres como é que os algoritmos deles funcionam e o que é os servidores deles retêm da tua informação e o que é vendido ou não para os anunciantes. Ou por exemplo as empresas que agora exigem que lhes dês a password do teu facebook para eles verem aquilo que tu tens andado a fazer…=))

    Other than that, foi bom não teres mostrado as cores politicas desta vez JN=)

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