Opinião: A língua traiçoeira de Madame Lagarde

Christine Lagarde é, há muito tempo, uma das figuras mais importantes, influentes e poderosas da economia mundial.

Contudo, nunca como esta semana Lagarde esteve tão em foco. Ou tão na mira, melhor dizendo.

Christine Lagarde tem sido, ao longo do tempo, elogiada pela sua elegância, pela sua firmeza, pela sua capacidade de liderança, pela facilidade com que inspira respeito.

No entanto, não foi nenhuma dessas qualidades que a trouxe para debaixo de todos os holofotes. Antes pelo contrário.

A natureza humana, e consequentemente a natureza dos media, tende a prestar mais atenção ao lado negro dos acontecimentos, é atraída pelo negativismo. Eu próprio padeço desse mal. E é perfeitamente natural que esta situação não constitua uma excepção.

Para os poucos que ainda não conhecem a história, a directora do FMI prestou algumas declarações muito infelizes, ao jornal The Guardian, sobre a situação da Grécia.

Afirmou por exemplo que “se as crianças gregas estão a ser afectadas pelos cortes na despesa pública, os seus pais têm de pagar os seus impostos”.  Mas não ficou por aqui. Quando questionada sobre como conseguia não pensar nas mães que não têm acesso a parteiras ou nos pacientes que não conseguem obter os medicamentos de que precisam para sobreviver, Lagarde respondeu que pensa antes nas crianças do Níger, porque “precisam mais de ajuda do que as pessoas de Atenas”.

Naturalmente, esta entrevista repercutiu-se intensamente em Atenas, obrigando líderes políticos gregos, como Evangelos Venizelos, a reagir ostensivamente. Obviamente, os habitantes da Grécia foram contagiados por uma profunda revolta, se é que era possível sentirem-se ainda mais revoltados.

Por culpa dessas consequências, o meu primeiro instinto foi pensar em Lagarde como uma personagem vil, insensível e monstruosa, e condená-la a todas as penas possíveis e imaginárias. No entanto, parece-me que tal seria exagerado. Lagarde sofre do mesmo vício profissional que a maior parte das personalidades ligadas aos reinos económicos e financeiros: entende a realidade como simples números. O que não significa que tenha intenção de ser uma pessoa má. Estou convicto de que Christine Lagarde foi apenas traída pela própria língua, que deixou escapar aquilo que não devia. A língua “chibou” Lagarde e deixou-a em maus lençóis.

Porque no fundo, algumas das coisas que Madame Christine disse, e que agora se viraram contra ela, não são propriamente mentira. De facto, os gregos (como muitos portugueses) têm de ganhar consciência de que ao não pagar impostos prejudicam tanto o seu país como se prejudicam a si próprios.

Não pagar impostos, mesmo os impostos injustos, é falta de patriotismo e de solidariedade. Digo-o porque se nós não os pagarmos, serão os nossos compatriotas honestos que irão pagá-los por nós, não os políticos ou qualquer outra entidade que procuremos castigar.

Por compreender a nova Dama de Ferro neste ponto, julgo que, afinal, será culpada apenas de um crime que eu, enquanto blogger, já cometi e irei cometer muitas vezes: falou com o coração ao pé da boca, disse aquilo que sentia e não pensou nas consequências e implicações das suas palavras…

A grande diferença é que eu, ao contrário de Lagarde, não sou director do FMI.

Se eu fosse director do FMI, entendia que a minha missão é ajudar os Estados a ultrapassarem as suas dificuldades, em vez de castigá-los. 

Se eu fosse director do FMI, compreendia que a minha falta de sensibilidade tinha de ser muito bem disfarçada, porque as minhas palavras e as minhas acções têm significado e, acima de tudo, consequências.

Se eu fosse director do FMI, saberia que acender um fósforo e atirá-lo para uma bomba de gasolina, não me vai ajudar a abastecer o carro. 

Se eu fosse director do FMI, saberia que não posso relativizar a vida humana, não posso atribuir mais valor ao sofrimento de um povo em detrimento de outro…

Infelizmente não sou director do FMI. Pelo que me resta desejar com muita força que as palavras de Christine Lagarde não tragam mais mortos na rua.

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