Reflexão: Que muitos Invernos cheguem antes da Primavera dos Porcos (PIGS)

Mais de um ano ficou para trás desde de que o mundo árabe experimentou o desabrochar de uma flor. Os blocos de gelo cruéis e sem vida, derreteram, dando lugar ao calor verdejante dos campos. O Inverno foi longo, o Inverno foi rigoroso, mas a Primavera, tardia, acabou por chegar.

A mais doce e sumarenta conquista foi conseguida nos primórdios da estação, mesmo antes da colheita dos frutos, porque a queda dos tiranos, trouxe uma tremenda alegria e um alívio enorme àqueles povos oprimidos. Mesmo que nada mais brotasse daquela Primavera, a seiva democrática tinha já alimentado as almas daquelas gentes.

Os cidadãos islâmicos tornaram-se donos do seu próprio destino, tornaram-se donos de si próprios, e isso é algo que não tem preço.

Contudo, e infelizmente, esta paisagem idílica conduz-nos a uma velha máxima: a de que há sempre dois lados de uma mesma história. Um mais bonito que outro.

Nos idos da primavera, o povo árabe foi confrontado com uma terrível fatalidade. Aprendeu de modo doloroso, que enquanto uns frutos se colhem maduros…outros apodrecem. Perceberam que a beleza e o aroma das pétalas, não impedem os espinhos de decorar o caule.

A tão desejada revolução alcançou bom porto à custa de muito sangue derramado. Foi necessária muita tinta vermelha, para poder ver os campos pintados de verde-esperança.

E alcançada a liberdade, gente continuou a sofrer com a fome, gente continuou a cobrir-se de fogo [n.d.r. mais de uma centena de pessoas morreram por imolação desde a primavera árabe na Tunísia], gente continuou a morrer nas ruas.

Os filhos da Primavera continuam a desesperar por uma vida digna. Ou pelo menos por uma vida melhor.

Estima-se que os danos colaterais da conquista da liberdade tenham implicado a perda de 56 mil milhões de dólares. A economia do Egipto por exemplo, revelou uma contracção de 4,2% nos primeiros três meses após a revolução, e uma subida no desemprego de 9 para 12%. Também a economia do continente africano pagou o custo da Primavera com uma quebra de 5% (embora esteja agora a recuperar 4,8%). A principal fonte de rendimentos destes países, o sector do turismo, foi fortemente afectada.

Não estou, com este retrato, a insinuar que a Primavera Árabe não deveria ter acontecido. De forma alguma. Como afirmei mais acima, a liberdade é uma conquista de valor incalculável.

Tento apenas mostrar que tudo na vida implica custos, e que devemos tê-los sempre presentes. A esperança não deve morrer, mas também não deve ser desmedida.

Partilho com vocês este quadro longínquo porque, a cada dia que passa, somos confrontados com cada vez mais motivos para nos indignarmos. Com a agravante de já termos o tanque a transbordar de indignações.

Para facilitar a difícil tarefa de vos fazer passar a minha mensagem, aproveito a deixa dos tanques (e das flores primaveris), para pedir a ajuda do grande poeta brasileiro Geraldo Vandré:

“Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão”

Estas palavras profundas, vindas de terras de Vera Cruz, podem perfeitamente servir de retrato para a realidade encontrada nos PIGS (Porcos), acrónimo pejorativo com que são apelidados os países do sul da Europa. E trata-se de um retrato tão feio, que temo que mais cedo ou mais tarde sejamos forçados a ir ao encontro da nossa Primavera.

Os gregos já iniciaram a sua, e as consequências estão à vista. A Grécia está bastante pior do que estaria sem os constantes e violentos confrontos na rua. Sei que todos os que se revoltaram lutavam pela liberdade, lutavam por valores maiores, lutavam por justiça. Outros lutavam por simples desespero, o que é ainda mais dramático. E nessa triste saga, acabaram, sem se aperceber, por se tornar inimigos de si próprios.

Mais uma vez, corro o risco de ser mal-interpretado. Mas volto a esclarecer, não defendo de forma alguma que os cidadãos deixem de lutar pelo que lhes é devido. Que é o mínimo respeito que não têm tido.

Não, não defendo de forma alguma que simplesmente se calem, se imobilizem, acatando as afrontas sem questionar.

Não, não quero “o país de brandos costumes”.

Quero sim, que se preocupem. Quero que se indignem. Quero que ambicionem mais. Quero que garantam os vossos direitos e que conquistem aquilo de que vos privam. Quero que construam um mundo melhor.

Mas por favor, tenham atenção ao verbo:

Construir.

Envolvam-se, façam-se ouvir, denunciem, proponham. Não se tornem meras forças destrutivas. Se a tirania é opressão, a revolução é a aplicação da força proporcionalmente inversa.

Eu quero o Triunfo do Porcos (PIGS) (lá está eu a invocar Orwell) antes da sua primavera. Dos porcos que são os países que habitamos, mas que, acima de tudo, somos nós dentro deles.

E para terminar este longo caminho que percorremos juntos, nada melhor do que regressar a Vandré:

“Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão”

Uma história sem sangue, uma história com flores.

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