Os privilegiados e os outros – Parte 1

Já há uns dias que não ouviam falar de mim. Ou melhor, que já não me ouviam falar, que é o que vos interessa. Peço-vos desculpa, e juro-vos que procurei começar, várias vezes. Contudo, a cada tema que procurava abordar, surgia outro de igual ou superior gravidade. Ainda consegui falar do Serrão, mas depois surgiu Borges, surgiu Passos, surgiu Relvas, (não) surgiu Cavaco, surgiu Camilo (Lourenço). Surgiram algumas discussões privadas. Surgiram os saudosistas do Sócrates.

O resultado foi uma overdose. Ainda soltei uns espasmos no twitter, instrumento que mal domino e onde ninguém me segue. Não deu para mais.

Hoje decidi: tenho de escrever. Sobre isto. Mas sobre o quê? Tanta coisa. Debati-me com a escolha da perspectiva certa, não sabia o que deixar de fora. Só encontrei uma solução: falar de tudo. E apenas me ocorre uma forma

Ou eu sou idiota, ou alguns iluminados que ouço falar são idiotas. Não há duas hipóteses possíveis. Porque eu olho para o estado das coisas e vejo com clareza que o status-quo não funcionou, não tem funcionado, e não vislumbro no horizonte grandes hipóteses de vir a funcionar.

Os tais iluminados, pelo contrário, defendem que o curso do rio que temos seguido é o correcto, e que se algo não está a resultar, é somente por escassez de caudal.

Uma visão que fica intimamente ligada a esta semana. Uma semana que fica tragicamente marcada pela lembrança da existência de um pulha chamado António Borges. Um dos tais que acham que a austeridade precisa de maior caudal e um dos que serve de prova de que o sistema actual, não só não funciona, como constitui uma afronta à justiça, equidade, e todos os outros valores derivados.

António Borges é uma personalidade que goza de enorme prestígio por duas simples razões. Primeiro por ter trabalhado no Goldman Sachs, umas das instituições que mais terá contribuído para a crise financeira que abalou o mundo e que se encontrava recheada de génios como ele que o conseguiram levar à falência. E segundo por ter trabalhado no FMI de onde terá sido despachado por ser “incompetente”.

Ora num sistema que obedecesse aos mínimos indispensáveis de racionalidade (ou de decência), Borges estaria, no mínimo, desempregado e a lutar pela sobrevivência. Afinal ouvimos todos os dias os iluminados declarar que o mercado de trabalho é feroz, que a concorrência é muita, que se deve apontar à excelência, que é natural que quem não produz não mereça recompensa. Todavia, nesse mesmo sistema dos iluminados, existe um estatuto especial para os pulhas como Borges.

O génio da finança gozou em 2011 de 225 mil euros livres de impostos, como recompensa pelas funções (mal) exercidas enquanto director para a europa do FMI. No entanto, inevitavelmente, depois da Bonança chega a tempestade. Um incompetente como Borges poderia encontrar apenas um único destino, o despedimento. Terreno onde deveria ter permanecido durante muito tempo, se possível até à eternidade.

Mas alguém com o estatuto de Borges, não pode estar desempregado, ou ir lavar escadas como já sugeriram muitos iluminados. Não, para Borges o desemprego é de facto “uma oportunidade”. Uma oportunidade de voltar a encher os bolsos com a sua incompetência. Tudo graças a Pedro Passos Coelho, que resolveu agarrar, todos os meses, em 25 mil euros do dinheiro dos contribuintes para que Borges tome conta da pasta das privatizações. O que na prática significa que, para defender os seus interesses face aos privados, o Estado confia num ultra-liberal que endeusa os privados e despreza o papel do Estado.

Não julguem, contudo, que o divino sistema que seguimos cegamente, se limita a permitir este tipo de aberrações. Isso não seria ir mais além. O nosso sistema permite que pulhas como António Borges, tenham a cobertura mediática para poder afirmar, do alto dos seus 25 mil euros, que a solução para Portugal passa por “reduzir os ordenados dos portugueses”. E apelido Borges com este termo carinhoso, porque alguém que se atreve a defender uma redução de ordenados quando ganha cerca de 30 vezes mais o ordenado médio português, não pode ser menos que isto. Apenas mais.

(continua…)

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