Os privilegiados e os outros – Parte 3

Se Passos Coelho está convencido de que somos como os gregos, eu vou procurar convencê-lo do contrário. Com três motivos bastante simples. Nós pagámos impostos, não fomos irresponsáveis e não falseámos as nossas contas públicas. Somos, aliás, muito menos próximos dos gregos do que do seu oposto.

Com um fácil exercício de memória, apercebemo-nos de que os portugueses, nos últimos 10 anos, não fizeram outra coisa se não preocupar-se em consolidar as contas públicas. Desde 2002 que só conhecem o apertar de cinto, exceptuando um ou outro delírio megalómano de Sócrates.

Portugal tem tido sempre o cinto apertado porque surge invariavelmente um motivo de força maior, um imperativo de urgência, que faz soar o alarme, que motiva a necessidade extrema de aplicação de austeridade. O que na prática se traduz não em aplicação, mas em mero agravamento.

O argumento utilizado para justificar estas medidas, quase sempre comunicadas como excepcionais, é inevitavelmente o mesmo: como gastámos mais do que aquilo que produzimos, somos obrigados a pagar o excesso.

Ora talvez não fosse mal pensado dar uma volta ao argumento: se gastamos toda a nossa energia e todos os nossos recursos a trabalhar para pagar o excesso, como vamos produzir mais do que aquilo que gastamos?

A resposta é simples, não vamos. Na verdade Portugal está a reunir todas as condições para permanecer interminavelmente escravo do endividamento. Para compreendermos o porquê vamos por momentos imaginar que Portugal é uma família.

Se uma família tem 500 euros em contas para pagar, e os seus rendimentos são de 500 euros, o orçamento disponível para outro tipo de gastos será nulo. Essa família, vamos chamar-lhe Coelho, viverá apenas para pagar as suas contas fixas.

Acontece que irão inevitavelmente surgir gastos extraordinários, as contas da água e da luz podem subir, e os impostos podem aumentar. As despesas dessa família vão portanto tornar-se superiores à riqueza que produz.

A partir desse momento a família Coelho tem duas hipóteses, ou procura aumentar as suas fontes de rendimento, por forma a conseguir fazer face às suas obrigações, ou se endivida para pagar as suas despesas.

O mais exequível, porque maior rendimento não surge por magia, seria endividar-se como veículo para conseguir investir e tentar aumentar a sua receita. Dessa forma, o aumento de riqueza da família daí decorrente, poderia conseguir responder ao aumento das despesas e cobrir o empréstimo contraído. Não é algo fácil, e é bastante falível, mas qual a alternativa?

A alternativa é a Família Coelho render-se ao endividamento para pagar o aumento da despesa. Financia os seus custos só que a despesa não desaparece, apenas muda de destinatário, e é agravada com juros. Pelo que a família Coelho apenas consegue ir fazendo face, temporariamente, por via de novos empréstimos, a uma dívida que vai sempre possuir e com contínuo agravamento.

Chegará uma altura em que a Família Coelho terá de abdicar de quase todas as suas despesas. Vai passar fome, vai viver sem água, vai pôr em causa a sua saúde para fazer face à dívida. Arrisca-se a que o Pai Coelho deixe de ter condições para trabalhar e perca definitivamente a capacidade para gerar dinheiro para a sua família. A família Coelho ficará arruinada e passará a depender de eventual caridade para sobreviver. O banco provavelmente não conseguirá recuperar todo dinheiro que emprestou, porque a família deixou de ter condições para lhe pagar.

O nosso país é a família Coelho. E caso não consiga criar condições para gerar riqueza suficiente para fazer face às suas obrigações, continuará escravo da dívida até que fatalmente encontre o seu triste fim.

Este status-quo, estes interesses dominantes, tornaram-nos escravos da dívida. Os grandes jogadores aliciaram-nos a ir jogar com eles, com promessas de obtermos mais do que aquilo que podemos ter. Observámos o exemplo dos Estados Unidos, potência económica com dívida gigantesca, e deixámo-nos seduzir pela possibilidade de um mundo em que viveríamos com mais do que conseguimos sem qualquer consequência.

O que ignorámos foi que em qualquer jogo alguém tem de ganhar e alguém tem de perder. Como em qualquer jogo, ganham os grandes jogadores. Portugal carece, e irá carecer sempre, de poder político que lhe permita jogar um jogo tão perigoso sem ser apertado. Quando se é peixe miúdo o fio é mais fácil de puxar. E o anzol está na boca desde início.

Daí a minha estupefacção por encontrar, no nosso país, tantos defensores de um sistema que nos coloca em tão desvantajosa situação.

Quando até Camilo Lourenço, alguém que tenho como pessoa ponderada, classifica uma entidade como a Moodys de “insuspeita” e afirma não perceber qual a razão para tanto negativismo dos portugueses, eu não encontro alternativa se não ficar atónito.

Sou forçado a fazer uma pausa para reflectir e identificar as causas para este fenómeno. E apercebo-me de que a explicação é bastante óbvia. A realidade a que eu tenho acesso e a realidade a que os aficcionados do sistema têm acesso são drasticamente diferentes.

(continua…)

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