O admirável mundo novo

Hoje deixo-vos com um texto que escrevi há uns tempos atrás e que andava perdido na desorganização virtual do meu ambiente de trabalho. Embora os números não sejam recentes, a mensagem permanece actual. Aqui fica:

 “O mundo transfigura-se a um ritmo vertiginoso. Um facto que não constitui qualquer novidade. No entanto, sempre que constato as mudanças alucinantes na morfologia mundial, a todos os níveis, não deixo de sentir um certo nó na garganta, neste caso provocado por um estudo elaborado pela consultora Mckinsey. Os dados fornecidos são os seguintes: no ano de 2020, em França, poderão existir 2,3 milhões de desempregados, enquanto 2,2 empregos tecnológicos poderão não encontrar franceses para os preencher. A novidade estará somente na particularidade dos números e do local, porque a realidade retratada é já bastante familiar. Afinal temos sido inundados, todos os meses, com estudos, reportagens, ou simples recomendações pessoais, que nos indicam que as oportunidades – quiçá as únicas – se encontram no universo das tecnologias. O que me dá que pensar…

O progresso tecnológico foi sempre encarado, até aos dias de hoje, como uma espécie de panaceia, algo exclusivamente bom. E, confesso, é complicado encará-lo de outro ângulo. Afinal, progredir é chegar mais além, é atingir o que antes não se encontrava ao alcance, é o processo através do qual se obtém mais e melhor.

Naturalmente, tornámo-nos obcecados por esse processo, por sermos mais do que aquilo que fomos no passado e somos no presente. O que temos e o que somos é sempre insuficiente, e quanto mais insatisfeitos formos, mais capazes seremos de oferecer mais. A satisfação conduz ao conformismo, e o conformismo impede o progresso.

Assim sendo, a felicidade torna-se irrelevante. O máximo que conseguimos – e devemos – desfrutar é uma momentânea sensação de saciedade, um deslumbre temporário no momento em que observamos o último fruto colhido da árvore do progresso. Findo esse deleite fugaz, voltamo-nos, de imediato, para o horizonte, apontamos a mira para a maravilha que poderá surgir a seguir, pelo que nunca nos conseguimos sentir realmente gratos pelas coisas maravilhosas que atingimos. Há sempre margem para melhorar…

Tornámo-nos uma espécie de escravos do amanhã e colocámo-nos reféns da tecnologia. Não conseguimos viver sem ela, e futuramente conseguiremos menos ainda.

Não obstante todo este meu dramatismo, se entenderam que considero o progresso tecnológico como algo maligno, foram por mim induzidos em erro e apresento-vos as minhas sinceras desculpas. Muito pelo contrário! Encaro o progresso como algo fantástico – às vezes quase mágico – e todos os dias me surpreendo com as coisas espantosas que a tecnologia nos permite fazer.

Não, não tenho medo algum do progresso. Tenho, isso sim, muito medo das obsessões. A obsessão é castradora, não permite espaço para nada que não seja seu objecto. E temo que seja precisamente desse mal que padece a nossa relação com a tecnologia.

Caminhamos para um mundo em que o valor do Homem será, única e imperativamente, ligado à máquina. Existiremos exclusivamente para criar tecnologia e para a operar, o que significa que, caso não o consigamos fazer, não representaremos qualquer utilidade para a nossa sociedade.

Esta é uma mentalidade cada vez mais visível no presente, na forma como se organiza o mercado de trabalho, tanto a nível de emprego como de retribuição, o que tem, inevitavelmente, consequências naquilo que a sociedade tem e terá para oferecer. Caso a tendência se mantenha com o mesmo ritmo, não iremos proporcionar nada para além do virtual e do computorizado.

Confesso que a possibilidade de um futuro nestes moldes me causa arrepios. E, por esse motivo, evito, normalmente, imaginar a minha vida daqui a 20 anos. No entanto, e apesar de, feliz ou infelizmente, a tecnologia não nos ter presenteado – ainda – com qualquer bola de cristal, possuímos indicadores cada vez mais claros de como será a paisagem do nosso futuro. Sou forçado a vislumbrá-la. E confrontado com essa paisagem, sinto a necessidade de me questionar: Será a tecnologia tudo de que necessitamos? Será que quando finalmente se aniquilar tudo o que não lhe esteja ligado, seremos uma sociedade melhor? Virtualizar e computorizar o mundo é, de facto, oferecer mais?

É fundamental que se comece a pensar sobre os passos que se dá, em vez de os dar simplesmente, de forma automática e vertiginosa. Caso contrário temo que a modernidade venha a revelar-se o derradeiro carrasco de qualquer futura humanidade…
Ou talvez seja exagero. Talvez seja apenas de mim, que sou, por natureza, preocupado.”

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