A iminência da morte no interior de um autocarro

Sempre que entro num autocarro apercebo-me de que os meus companheiros de viagem representam para mim pouco mais do que isso. Não são para mim o senhor José, o António, a Maria ou a dona Erminda, mas apenas passageiros sem nome do mesmo autocarro em que me encontro. A minha existência representa igualmente pouco para eles, para além do jovem anónimo que viaja no autocarro 33.

Sempre me fez confusão esta frieza de saber tão pouco sobre a dona Erminda ou sobre o senhor José. Gostava de os poder admirar pela coragem honrada com que enfrentam a dureza vida. Ocasionalmente um lamento ou um motivo de orgulho torna-se mais audível, sopra ao meu ouvido, e eu sorrio. Por vezes fico a conhecer o nome da neta e o amor incondicional da sua avó. Vislumbres de um mundo com gente dentro que são capazes de transformar uma viagem de autocarro num despertar para a realidade.

Dentro de um autocarro, um senhor de avançada idade conversava com um companheiro de viagem que já conhecia. Sei que é falta de educação ouvir as conversas dos outros, mas estava sentado demasiado próximo dos dois senhores para conseguir não escutar. Ainda para mais, o modo desalentado com que o senhor de quem não sei o nome se apoiava na bengala já havia captado a minha atenção. O seu semblante estava marcado com notas tristes e carregadas, fazendo-me contar mentalmente clichés de solidão. Sem que eu conseguisse evitar, os meus ouvidos tornaram-se mais atentos, como se tivessem vida própria e quisessem descobrir os motivos que desenhavam desânimo naquele rosto.

Ouvi os habituais “cá se vai andando” e algumas informações sobre o destino da viagem. Não demorou muito para que o senhor sentisse necessidade de contar ao seu conhecido companheiro de viagem a inquietação que o consumia. Era apenas uma. Uma com o peso do mundo.

“Tenho 50 e poucos contos de pensão…pouco mais dá do que para comer. Se não é o meu filho a cuidar de mim, nem dinheiro tinha para a medicação. Já não ando neste mundo a fazer nada”. Pouco há de mais pesado do que a consciência de viver de forma pouco digna, ou pior, de julgar que a própria existência não possui qualquer valor. O outro logo tratou de o chamar à razão, “oh amigo deixe-se lá dessas coisas”. Mas o amigo não se deixou, “a sorte é que já não ando por aqui muito mais tempo…”. Restou apenas silêncio entre os dois.

Saí daquele autocarro com um soco no estômago e um aperto no peito. É difícil para o ser humano lidar com a falta de valor da vida, porque o ser humano aprendeu que a vida é o valor acima de todos os outros. Excepto para aquele senhor, que se sentia somente um passageiro sem relevância, à espera da sua última paragem. Da última fora do autocarro.

É este o lado dos números que as notícias não mostram. O lado que está para além das contracções da economia de 0,1% ou dos cortes de 30% na despesa do Estado, o lado que está para lá do rigor orçamental e das metas da troika. Para quem governa, este senhor anónimo no autocarro, não existe…

Porque não se pode traduzir em números a vontade de morrer.

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6 respostas a A iminência da morte no interior de um autocarro

  1. Vespinha diz:

    O sentimento de falta de dignidade é terrível. Na velhice, depois de uma vida inteira vivida, é desumano.

  2. Manuel Cruz diz:

    Emocionante artigo. A frase “não se pode traduzir em números a vontade de morrer” vai-me ficar gravada na memória.

  3. José Manuel da Silva Rosa Rodrigues diz:

    Um passageiro entre outros…um pensamento igual ao de muitos outros!!!

  4. R Cardoso diz:

    Isto faz-me lembrar a Caverna de Platão. Veremos só projecção de sombras enquanto não tivermos a coragem de sair e ver a luz do sol e vendo-a sentimos o tal murro no estomago, e esse murro mostra-nos o que Alvaro Campos escreveu “”Sou lúcido. Merda! Sou lúcido.”

  5. Tenho muito gosto em estar a conhecer o seu blogue. Pois essa conversa que o amigo
    ouviu no autocarro existe (a situação) em milhares de portugueses que trabalharam uma
    vida, para ter uma reforma miserável e serem tratados pelo Governo como lixo…
    Virei sempre que possa.
    Um beijo
    Irene Alves

  6. Alexandra diz:

    ‘Não ando cá muito tempo’ é algo que é dito por alguem que desiste.
    Ouvir em qualquer pessoa é terrível mas ouvir num amigo, sem perceber porquê, é ainda pior.
    Parabéns pelo Blog. Gostei muito.

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