Uma entrevista com super-pateta, primeiro-ministro de Portugal

Estive de férias. Não escrevi, não li, não pensei, não me preocupei, porque a minha cabeça merecia alguns dias de sol. Não me refiro ao sol da praia – de que também desfrutei – a embater no exterior da cabeça, mas sim ao sol que dentro dela torna os pensamentos menos cinzentos e ordena às nuvens mais negras que migrem para sítios mais frios. Deixei-me envolver por aquela sensação agradável que apenas se alcança por via da pacatez da inexistência e da ignorância da alucinação, quando nos libertarmos da eminência da desgraça, permanente e ininterrupta. Por vezes sabe bem ignorar a face feia da natureza humana, deixar que se torne invisível por entre os raios de luz, esquecer que os homens moldam o mundo e não sabem o que fazem. Contudo todas as férias terminam, e os homens que moldam o mundo, que somos todos, retornam à sua existência.

Hoje um desses homens entrou por minha casa adentro, avisando-me que não sabe o que faz. Não porque eu não o soubesse, apenas pela cortesia de me relembrar que o mundo não está feito para ter sol. O nome desse homem é Pedro Passos Coelho.

O primeiro-ministro de Portugal tomou mais um conjunto de decisões que irá moldar o mundo dos portugueses, e uma vez mais tornou-o mais sinuoso, mais cinzento e mais insuportável. Muita tinta correu já sobre o assunto, muita gente se revoltou, muita gente explicou já porque está errado. Porém, deixando as considerações políticas e económicas de parte, acho que falta entender o essencial, porque é necessário compreender a pessoa para entender o governante. Passos não age por malícia ou requinte sádico como muita gente parece entender. Não acredito que possua qualquer plano diabólico para dominar o mundo, porque não é um vilão e muito menos um demónio. Passos é apenas um homem fraco numa posição de poder, uma combinação invariavelmente desastrosa. Provavelmente, por ter chegado onde chegou, o Primeiro-ministro alimentou nele próprio a ilusão de que seria algo para além da mediocridade evidente que o constitui. Agora é forçado a lidar com o desespero que qualquer homem sente quando percebe que perdeu aquilo que nunca teve.

É uma tarefa hercúlea, a de compreender o que é mais desastroso no meio de toda esta embrulhada em que o super-pateta (cognome que tomo a liberdade de atribuir ao PM) se deixou envolver. Os danos dramáticos que estas medidas irão trazer ao país são consensuais para toda a gente menos para os seus executantes; as consequências tanto para a imagem do governo como para a sua estabilidade política e social são catastróficas; e para ajudar ao completo “non-sense”, o conceito que o governo tem de “damage control” parece passar por engolir um camião dinamite. Porém, nada disto deve causar demasiado espanto, uma vez que este governo já demonstrou ser especialista na arte de agarrar numa situação desastrosa e torná-la na pior possível. Se for essa a missão de Passos, então acredito piamente que durma tranquilo à noite por estar a fazer “o melhor possível”, como afirmou com pura esquizofrenia ou insultuoso descaramento.

No entanto, prefiro não centrar o ataque em Passos Coelho porque, ao contrário do governo que é suposto chefiar, não gosto de bater em mortos. Se há coisa que me parece ter ficado clara nesta entrevista, talvez a única, é que Passos é apenas o bode expiatório, a face mais visível de um plano que não ajudou sequer a esboçar. E como costuma acontecer nestas aventuras arriscadas de grupo, é o pateta que acaba atirado aos leões para salvar os que se aproveitaram dele. Passos apresentou-se totalmente vulnerável, sem instrumentos para se defender, e caso tivesse sido abordado por entrevistadores mais agressivos teria abandonado o ecrã da televisão com lesões irreparáveis.

Mas mesmo que sobreviva, o super-pateta não irá ficar bem tratado. É das poucas figuras da história da política portuguesa a conseguir revoltar ao mesmo tempo, jornalistas e economistas, povo e grandes patrões (incompreensível do ponto de vista político o ataque gratuito a Belmiro), e acrescentar a proeza de encostar uma arma à cabeça do seu maior aliado (a antecipação a Paulo Portas). Entretanto, na sombra, o país continua refém de pulhas como António Borges ou das patologias psiquiátricas de Vítor Gaspar.

O sol foi embora, os homens regressam, e não sabem o que fazem. Este ano o Inverno chegou mais cedo a Portugal.

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12 respostas a Uma entrevista com super-pateta, primeiro-ministro de Portugal

  1. Manuel Cruz diz:

    Excelente!

  2. Ana Melo diz:

    Gostava de o ver fazer uma análise mais concreta à entrevista, apesar de concordar inteiramente com quase todas as ideias vagas que apresentou. O texto esta muito bem escrito mas fica a faltar alguma substancia mais palpável. Cumprimentos

  3. José Manuel da Silva Rosa Rodrigues diz:

    Excelente artigo.
    O Sol teve em si, um muito bom efeito!
    Obrigado.

  4. Diogo Morgado Conceição diz:

    Bravo, caríssimo!

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